Ainda Não É Ilegal — Uma Aula Gratuita de Inglês sobre Poder, Imprensa e Persuasão
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Não É Ilegal
Ainda
Um em cada cinco canadenses trabalha para o chefe. Então, quem, exatamente, vai escrever a matéria desfavorável sobre o chefe?
Deixe-me dizer isso claramente, enquanto ainda posso: ainda não é ilegal perceber o que estou prestes a apontar. Não é ilegal escrever isso. Não é ilegal publicar, nem para você ler. Eu continuo enfatizando o ainda, porque esse é todo o clima da coisa. Nós somos, supostamente, livres. Então vamos exercer essa liberdade antes que alguém decida que já tivemos o suficiente dela.
Aqui está a coisa que não consigo parar de pensar.
Mais de um em cada cinco canadenses empregados recebe salário do governo. Não é um contratado. Não é um fornecedor. É um verdadeiro trabalhador do setor público — federal, provincial ou municipal, incluindo pessoas da saúde, educação e serviços sociais. Os números mais recentes apontam para cerca de 21.5% da força de trabalho, uma das maiores proporções em mais de trinta anos. E onde estou, no Atlântico do Canadá, é pior — ou melhor, dependendo de quem assina seu cheque — em quase 30%.
Pense nisso por um instante. Arredonde para baixo, para ser generoso. Imagine uma sala com cem pessoas trabalhando, e vinte delas trabalham para o mesmo chefe. Um chefe. Vinte funcionários em cem. Isso não é uma nota de rodapé. Isso é um bloco de votação, um público leitor, uma base de anunciantes e uma lista de fontes, tudo ao mesmo tempo.
Agora faça a si mesmo uma pergunta honesta. Se você dirigisse um jornal nessa sala — um de verdade, uma "imprensa livre" — quão disposto você estaria a publicar uma matéria dura sobre o chefe? Sobre como o chefe falhou com alguém? Desperdiçou dinheiro? Quebrou uma promessa? Você pensaria nisso. Você pensaria nos vinte. Você pensaria nos cônjuges deles, nas aposentadorias, nas assinaturas e no investimento em publicidade do governo que discretamente mantém suas luzes acesas. E em algum momento desse pensamento, sem que ninguém jamais lhe envie um memorando, a matéria fica um pouco mais suave. Ou nem chega a ser publicada.
Ninguém precisa censurar nada. Só é preciso a matemática. Vinte em cem é matemática suficiente.
Se fossem sete em cem? Outra história. Sete pessoas não assustam uma redação. Sete pessoas não assustam ninguém. Você poderia escrever o que quisesse sobre um chefe que só emprega sete dos seus cem.
O que me leva, naturalmente, à China.
Somos informados — constantemente, com entusiasmo — que a China é o exemplo a ser evitado. A jaula. O lugar onde o Estado controla tudo e todos têm medo. E não estou aqui para defender o governo chinês; morei ao lado dele por quinze anos e tenho minhas próprias opiniões. Mas aqui está o número que ninguém cita. Pela mesma régua que usamos para os 21,5 por cento do Canadá, a parcela de trabalhadores chineses na folha do setor público é em torno de 23%. Algumas estimativas apontam um valor ainda maior.
Leia isso de novo. O exemplo a ser evitado e o Verdadeiro Norte Forte e Livre são, nesse quesito específico, basicamente o mesmo país. A parcela de pessoas cuja subsistência depende do Estado é um cara ou coroa entre nós.
Então qual é a verdadeira diferença? Não é o tamanho da dependência. É a história que contamos para nós mesmos sobre isso. A China não finge. O Canadá finge. Um país diz, em voz alta, "o Estado é grande e está de olho." O outro estampa uma bandeira, se chama de livre e confia que você não vai fazer a conta.
E a ficção reconfortante funciona justamente porque vinte em cada cem pessoas têm todos os motivos para continuar acreditando nela, e a imprensa que poderia desmascará-la tem todos os motivos para deixá-las.
Já que estamos distribuindo contos de advertência, vamos falar sobre os Estados Unidos. A terra da liberdade. A terra que prende mais dos seus próprios cidadãos do que quase qualquer nação do planeta — no auge, cerca de um em cada cem adultos americanos atrás das grades de verdade, e ainda, após uma década de queda, uma das maiores taxas de encarceramento do mundo. Uma prisão real, veja bem, não uma metáfora. Uma prisão industrial, com acionistas. O dinheiro é bom porque os clientes não podem sair.
E o dólar continua valendo porque, se você decidir que prefere não usá-lo, eles vão atirar em você. Tem um exército para isso. Tenho certeza de que os Estados Unidos não estavam no Iraque porque o principal produto de exportação era brócolis. Definitivamente não tinha nada a ver com o que sai do chão lá e com qual moeda você é obrigado a comprar.Clinton-sobre-Qaddafi: Viemos, vimos, ele morreu, no melhor estilo!Será que perdi alguma coisa? Porque, de onde estou, parece mesmo que o petrodólar e os porta-aviões são dois lados do mesmo aperto de mão. Mas o que eu sei. Sou só um cara fazendo as contas em voz alta, o que — diga comigo — ainda não é ilegal.
O que me mata na versão canadense de tudo isso é o seguinte. Se sete pessoas realmente pudessem comandar cem — se o governo fosse tão enxuto e barato assim — não estaríamos pagando nossos professores como se o futuro dependesse deles? Não sobraria dinheiro para as coisas que dizemos valorizar? Em vez disso, construímos algo enorme e lento e cada vez menos produtivo por dólar, e fizemos disso o maior empregador individual das pessoas cujo trabalho, supostamente, é questioná-lo. O desperdício é épico. E é uma pena — genuinamente, irritantemente uma pena — que uma certa camada dos permanentemente confortáveis em Ottawa não se dê ao trabalho de perceber isso, muito menos de consertar.
Eles certamente não se deram ao trabalho de me notar.
Sou canadense. Voltei para casa depois de passar a maior parte da vida adulta no exterior, construindo algo, aprendendo coisas que este país realmente poderia usar. Já enviei mais de quatrocentos currículos. Não estou esperando por um escritório de canto. Estou pedindo, mais ou menos, por um emprego. Qualquer emprego. Fazendo qualquer coisa.E o que me dizem é que o preço disso é esperar — um ano, um ano e meio, às vezes dois — e tratar essa espera como normal. Como se fosse assim mesmo.A Porta Pintada na Parede.
Não parece certo, não é? Não está certo. E o motivo de você não ler mais sobre isso — sobre um governo que falha silenciosamente com os próprios cidadãos que diz servir, um canadense retornando de cada vez — é o mesmo motivo de você não ler quase nada realmente duro sobre esse governo. Vinte em cada cem. A matemática faz a censura para que ninguém precise.
Estou escrevendo isso porque amo este país o suficiente para dizer a verdade: você pode fazer melhor do que isso.Gostaria de ser útil para ele. No mínimo, posso ser o cara que diz o que ninguém diz enquanto ainda é permitido.
Então está aqui. Por escrito. Enquanto ainda não é ilegal.
Fundamentos: Lendo o Argumento
01Aquecimento · Fale Primeiro
Discutam em duplas antes de ler. Não há respostas erradas aqui.
- No seu país, muitas pessoas trabalham para o governo? É considerado um bom emprego? Por quê?
- O que significa "imprensa livre" para você? Os jornais deveriam poder criticar o governo?
- Você já esperou muito tempo para encontrar um emprego? Como se sentiu?
- Leia apenas o título: "Ainda Não É Ilegal." O que você espera que o autor diga? Por que essa palavra, ainda?
02 Vocabulário-chave
Dez palavras do texto. Leia cada definição e exemplo em voz alta.
03 Leia o Ensaio
Leia "Ainda Não É Ilegal" acima, uma vez, do começo ao fim, sem parar. Não se preocupe com cada palavra ainda — apenas entenda a ideia principal.
04 Associação de Vocabulário
Associe cada palavra (à esquerda) ao seu significado (à direita). Escreva a letra.
Palavra
- força de trabalho
- publicar
- aposentadoria
- desperdício
- decepcionar alguém
Significado
- decepcionar alguém
- dinheiro pago após a aposentadoria
- todas as pessoas que trabalham
- tornar um texto público
- uso descuidado de dinheiro ou tempo
Gabarito
- C
- D
- B
- E
- A
05 Compreensão · A Ideia Principal
Responda em frases completas.
- Qual a proporção de canadenses empregados que trabalha para o governo?
- No Canadá Atlântico, essa proporção é maior ou menor? Aproximadamente quanto?
- No exemplo dos "100 pessoas em uma sala", quantas trabalham para o mesmo chefe?
- Por que um jornal pode ser cuidadoso ao criticar o governo?
- Quantos currículos o autor enviou? Para que tipo de emprego ele está se candidatando?
- O autor odeia o Canadá? Encontre uma frase que comprove sua resposta.
Gabarito
- Cerca de um em cada cinco — aproximadamente 21,5%.
- Mais alto — quase 30%.
- Vinte.
- Porque muitos de seus leitores, anunciantes e fontes dependem do governo, então uma matéria crítica corre o risco de desagradar uma grande parte de seu público.
- Mais de quatrocentos; ele está pedindo "um emprego. Qualquer emprego. Fazendo qualquer coisa."
- Não. Exemplo: "Eu amo este país o suficiente para dizer a verdade: vocês podem fazer melhor do que isso."
06Complete a lacuna
Use cada palavra uma vez.
- Após 30 anos de trabalho, ela finalmente recebeu sua __________ mensal.
- Uma verdadeira __________ pode criticar líderes sem medo.
- Ele atualizou seu __________ antes de se candidatar ao emprego.
- Professores e enfermeiros fazem parte da __________ pública.
- O jornal se recusou a __________ a matéria constrangedora.
- Você __________ como o escritório estava silencioso hoje?
- Todos estão na __________ da empresa, exceto os voluntários.
- Gastar dinheiro com coisas que ninguém usa é puro __________.
- O sistema __________ com ele quando ninguém respondeu suas cartas.
- Esperar dois anos por uma resposta não deveria ser __________.
Gabarito
- pensão
- imprensa livre
- currículo
- força de trabalho
- publicar
- aviso
- folha de pagamento
- desperdício
- falhou
- normal
07 Discussão
Fale por pelo menos um minuto sobre cada um.
- O autor diz "a matemática faz a censura." Em suas próprias palavras, o que ele quer dizer?
- É um problema se muitas pessoas em um país trabalham para o governo? Por quê ou por que não?
- Um jornal deve publicar uma matéria que desagrada muitos de seus leitores? Quando?
- Você acha que o autor está com raiva, triste, esperançoso — ou os três? Aponte as palavras.
08 Tarefa de Escrita
Um jornal deve criticar o governo mesmo que muitos de seus leitores trabalhem para esse governo? Dê duas razões claras para sua opinião e um exemplo. Comece com uma frase que expresse seu ponto de vista.
Dica do professor
Retórica, Ironia & Argumento
01 Aquecimento · Tome um Lado
Reações rápidas. Defenda sua posição com uma razão.
- "Uma imprensa livre não pode realmente existir onde a maioria das pessoas depende do Estado." Concorda ou discorda?
- O autor compara o Canadá à China. Essa comparação é justa, inteligente, injusta — ou as três?
- Quando o sarcasmo é um bomferramenta na escrita séria? Quando isso pode sair pela culatra?
02Vocabulário Avançado
Dez novas palavras — a linguagem da persuasão. Nenhuma se repete da Lição Um.
03Releia com um olhar crítico
Leia o ensaio novamente — desta vez sublinhe todos os lugares onde o autor está sendo sarcásticoem vez de literal. Você deve encontrar pelo menos cinco.
04Nomeie o recurso
Para cada linha, identifique a técnica: hipérbole · ironia · pergunta retórica · atenuação · refrão (frase repetida) · metáfora
- "Provavelmente as exportações de brócolis."
- "Ainda não é ilegal." (repetido ao longo do texto)
- "Não parece certo, não é?"
- "A matemática faz a censura para que ninguém precise."
- "Quão disposto você estaria a publicar uma matéria difícil sobre o chefe?"
- Um país "livre" que prende mais pessoas do que quase qualquer outro lugar na Terra.
Gabarito
- Hipérbole / sarcasmo — exagero absurdo para zombar do motivo oficial para a guerra do Iraque.
- Refrão — uma frase repetida que constrói inquietação e unifica o ensaio.
- Pergunta retórica (com atenuação) — espera concordância, não uma resposta.
- Metáfora — "a matemática" representa a pressão silenciosa dos números.
- Pergunta retórica — envolve o leitor no raciocínio do autor.
- Ironia — o contraste entre "terra da liberdade" e o encarceramento em massa.
05 Compreensão Crítica · Leia nas Entrelinhas
- O autor diz: "Ninguém precisa censurar nada." Como uma imprensa livre pode ser limitada sem censura formal? Use a palavra incentivo.
- Explique a ironia central da comparação entre Canadá e China em duas frases.
- Por que o autor se chama de "apenas um cara fazendo as contas em voz alta"? O que essa retórica alcança?
- Identifique um momento de atenuação e explique por que ele é mais poderoso do que gritar seria.
- De que lado o autor está — e como você sabe que não é simplesmente "anti-Canadá"?
- O sarcasmo fortalece ou enfraquece o argumento dele? Defenda seu ponto de vista.
Respostas de exemplo
- Editores têm um incentivo para evitar matérias que desagradem um grande público dependente do governo, então se autocensuram — não é necessário um veto oficial.
- Canadá e China têm uma proporção semelhante de trabalhadores dependentes do Estado, mas o Canadá se apresenta como livre enquanto a China não. O choque está na semelhança, não na diferença.
- Isso o coloca como um cidadão comum e razoável, e não como um extremista, tornando o leitor mais propenso a seguir sua lógica.
- "Não parece certo, não é?" — a formulação calma e tranquila convida à concordância e soa mais sincera do que um desabafo raivoso.
- Ele está do lado dos cidadãos e do jornalismo honesto; a frase final ("você pode fazer melhor") demonstra lealdade, não ódio.
- Aberto — recompense uma posição clara com evidências de qualquer lado.
06 Vocabulário em Contexto
Escolha a melhor palavra para cada lacuna.
- Dizer que uma espera de dois anos "não deveria ser normal" é um exemplo calmo de __________.
- O tom amargo e zombeteiro do autor pode ser descrito como __________.
- Todo governo conta uma __________ sobre si mesmo; este ensaio questiona a do Canadá.
- Afirmar que um país está em guerra "por causa do brócolis" é uma clara __________.
- Autocensurar-se para proteger a receita de anúncios é __________ sem um censor.
- O autor mira em um confortável __________ de funcionários em Ottawa.
- A __________ econômica de uma nação em relação ao Estado molda o que sua imprensa ousa publicar.
- A __________ mais profunda é que o país "livre" se assemelha àquele que teme.
Gabarito
- atenuação
- sarcástico
- narrativa
- hipérbole
- censura
- estrato
- dependência
- ironia
07Debate Estruturado
Três papéis, dez minutos para preparar, depois três minutos cada.
Moção: "Uma imprensa financiada e lida por funcionários públicos nunca pode ser verdadeiramente livre."
- Equipe A — A favor da moção:useincentivo, dependência, ecensura.
- Equipe B — Contra a moção:argumente que profissionalismo, concorrência e confiança dos leitores mantêm a imprensa honesta.
- O Editor (juiz): faça uma pergunta difícil para cada lado, depois decida qual usou melhor as evidências — não apenas emoção.
08Redação de Opinião
"É possível ter uma imprensa livre em um país onde uma em cada cinco pessoas trabalha para o governo?"Tome uma posição clara e defenda-a.
Estrutura a seguir:
- Gancho + tese — uma frase inicial marcante, depois sua afirmação clara.
- Argumento um — seu motivo mais forte, com evidência ou exemplo.
- Argumento dois — um segundo motivo, diferente do primeiro.
- Contra-argumento + refutação — apresente a melhor objeção e depois responda a ela.
- Conclusão — reafirme sua posição com outras palavras; termine com força.